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id da página: 9549 JEAN BORELLA DO NÃO-SER E DO SERAFIM DA ALMA

Não Ser Léxico Chines

NÃO-SER NO LÉXICO CHINÊS

As notas precedentes se aplicam parcialmente ao léxico chinês, o qual Guénon nos disse ter tomado o termo Não-ser (ESTADOS MÚLTIPLOS DO SER, p.32). Parcialmente, por causa das particularidades linguísticas do chinês. Primeiro porque, entre todas as línguas do mundo, o chinês é uma das raras a não « possuir nenhuma categoria gramatical que seja distinta de maneira sistemática pela morfologia: nada aparentemente diferencia nisso um verbo de um adjetivo, um advérbio de um complemento, um sujeito de um atributo ». Por outro lado, « o chinês também não tem o verbo de existência, nada que permita traduzir esta noção de ser ou essência como tão comodamente existe em grego o substantivo ousia ou o neutro to on ». 1 2 Resulta nisso que a expressão chinesa Wou-Ki, que os tradutores ocidentais usam para « Não-Ser », porque ela tem esta significação, na realidade, não comporta a palavra « ser ». Ki, com efeito, designa a « poutre faîtière » , ou, simplesmente, o « faîte ». Entra na composição , por uma parte com a palavra Taï-ki, o « Grande Princípio » o qual constitui o nome próprio do símbolo do Yin-yang, e por outra parte com a palavra Wou, para formar Wou-Ki, o « Non-Faîte » ou « Não-Ser », Essência impenetrável/ inatingível/indiscernível de Taï-Ki ( Taiji ).

Todavia, com a negação Wou,encontramos considerações análogas àquelas que fizemos à propósito do grego. Assim como o grego, com efeito, o chinês possui duas formas de negação: feï e wou, cujo valor é mais ou menos parecido com àquele do ou e do mè ; feï significa a negação pura e simples (tal coisa não é isto ou aquilo), enquanto que wou indica antes a « não presença » de alguma coisa em geral. Como sublinha/destaca Liou kia-Hway : « O caractere wou (...) não indica a negação/aniquilamento sistemático de tudo (...). Evoca uma espécie de indeterminação absoluta que contem nela a determinação concreta sob todas suas formas » (Philosofias taoïstes, Pleiade, p. 636). 3


NOTAS:
1

Jacques Gernet, Chine et christianisme, Gallimard, 1982, p.325. NT: O título completo é : Chine et christianisme, action et réaction,
Collection Bibliothèque des Histoires, Ed.Gallimard,
Paris, 1982, 342 p. foi reeditada em 1991 com título:
Chine et christianisme e subtítulo: La première confrontation.
ISBN 2070263665
Fizeram traduções para o alemão em 1984; para o italiano e para o inglês em 1985; para o espanhol em 1989; e para o em japonês em 1996.

Resumo:

O livro procura esclarecer as contradições e antinomias das tradições chinesas e ocidentais auxiliado por abundante traduções de textos chineses e de testemunho de missionários cristãos que estiveram na China no século XVII, onde o cristianismo tinha proporcionado, desde o início, reações diversas fossem de simpatia ou curiosidade ou aprovação algumas vezes misturadas com reservas, e outras. Mas, a mais duradoura foi, sem dúvida, a de radical hostilidade onde predominava nos ambientes instruídos, por considerarem uma ameaça pluriforme contra todas as tradições filosóficas, morais, políticas, sociais e religiosas da China. Isto porque a China afirmava a unidade do homem e do Universo, a ideia de um princípio de organização inerente à matéria e uma espécie de metabolismo universal. Ela supunha às origens da moral uma espontaneidade análoga àquela dos fenômenos naturais «O Céu não fala», dizia Confucius. Esta obra leva a interrogarmos sobre a relação da língua e do pensamento. A diferença das tradições intelectuais e sociais não seriam a única causa: as estruturas linguísticas teriam sido os efeitos determinantes nas orientações fundamentais do pensamento na China e no Ocidente.

2

NT: A expressão « poutre faîtière » causa muita dificuldade para tradução. O adjetivo no original: « faîtière », tomado substantivamente designa a ou as avarias da "viga mestra" (em inglês "ridgepole" também traduzido por "pau de cumeeira"). « Faîtière » serve também para designar qualquer elemento de construção relacionado com a viga mestra: trave da viga mestra, telha da viga mestra, ...Seria aqui no caso traduzida literalmente por «viga mestra avariada», que não se aplica nem corresponde ao tema do nosso texto.

No entanto, para o texto em questão deve-se considerar o termo « Ji » (ou "Chi". Atenção ! Este "Chi" é diferente do "Qi/Chi" de Qi Gong) ) que significa « poutre faîtière d’une maison », mais precisamente : o superior, o último, mas, subentende também a ideia de harmonia das tensões diante desta imagem de duas vigas de um teto se apoiando uma sobre a outra e representando duas forças opostas e indissociáveis.

Para contribuir na compreensão da questão aqui estão alguns usos do Qi :

Qi gong
-literalmente "Trabalho (Gong) do Sopro (Qi)" ou "prática energética".

Shen Qi
- literalmente "Sopro-Espírito" e Forças Telúricas. Pode-se traduzir por energia espiritual.

Jing Qi
- literalmente "Essência-Espírito". Pode-se traduzir por energia essencial.

Entretanto, o termo tàijí poderia ser traduzido em francês por « faîte suprême », como também representa a « poutre faîtière d'une habitation » e a ideia de último. É um dos principais símbolos taoistas. Representado graficamente pelo diagrama de taiji ou taijitu. Na filosofia taoista está ligado ao símbolo do vazio ou não-existente (um círculo vazio) e ao símbolo do tao. É também o nome dado ao símbolo do yin-yang.

3

NT : Existem 2 obras com este título, uma é o tomo I que não aparece como indicação no livro e a outra é o tomo II cuja indicação é apenas o II ao lado do título. A citação pertence ao tomo I.

Philosophes taoïstes. Lao-Tseu, Tchouang-Tseu, Lie-Tseu.
Avant-propos, préface et bibliographie par Étiemble.
Textes traduits, présentés et annotés par Liou Kia-Hway et Benedykt Grynpas relus par Paul Demiéville, Étiemble et Max Kaltenmark.
Éditions NRF, Gallimard, Bibliothèque de la Pleiade, n° 283,
Paris, 1980, 776 p.
ISBN-10: 2070106837
ISBN-13: 978-2070106837

Ce volume contient :
- Tao-tö king, par Lao-tseu.
- L'œuvre complète de Tchouang-tseu.
- Le vrai classique du vide parfait, par Lie-tseu.
- Notices, notes et répertoire.

Philosophes taoïstes, II, Huainan zi,

Édition publiée sous la direction de Charles Le Blanc et de Rémi Mathieu
Textes traduits du chinois par Bai Gang, Anne Cheng, Charles Le Blanc, Jean Levi, Jean Marchand, Rémi Mathieu, Nathalie Pham-Miclot et Chantal Zheng
Éditions NRF, Gallimard, Bibliothèque de la Pleiade, n° 494,
Paris, 2003, 1182 p.
ISBN-10: 2070114244
ISBN-13: 978-2070114245

Tome II : le Huainan zi est dû à Liu An, prince de Huainan et petit-fils du fondateur de la dynastie Han. Somme philosophique autant que politique, il se présente comme un ensemble de traités sapientiaux ayant pour fond le tableau vivant de la société des Han. Tout en donnant une idée aussi complète que juste d'une époque et d'une culture qui marquèrent profondément l'empire de Chine, il vise à servir les hommes dans leur aspiration à s'élever vers la sagesse. Il s'agit en fait de présenter sous un angle nouveau des connaissances déjà anciennes, de montrer que tout savoir se place sous le signe du tao et que l'interrogation sur le tao est préalable à toute autre.